Rafael Martins

Instagram: @rafaelmartins_ssa

Leio a pauta pela manhã ainda dentro do carro. Estou a caminho da Barra, vamos produzir um retrato para a matéria do dia que trata dos desafios da educação na pandemia. A fonte é um professor que vai nos contar sobre sua nova rotina. Ao chegar no local me identifico ao porteiro, ele interfona e avisa:  já está descendo. Fico vagando no térreo do prédio procurando algo que possa ajudar a “compor” a imagem. Percebo na decoração da sala uma enorme cortina de voal, mesa baixa com três livros grandes de arte, daqueles que claramente ninguém ousaria folhear, tapetes e um espelho tomando quase toda a parede. Não consigo encontrar ali um elo entre o ambiente e nosso assunto da matéria. Quando ele chega, conversamos um pouco e peço que fique na frente de uma parede com uma textura que imita pedra, depois que sente e finja utilizar o celular, faço tudo com uma lente teleobjetiva, agradeço e vou embora.

Como você imagina a rotina de um fotojornalista? Situações de ação na rua e flagrantes incríveis do dia a dia da cidade? Uma vida cheia de riscos de contaminação agora na pandemia?  É, até que alguns dias são assim mesmo, porém o que mais tem acontecido é um outro fenômeno: A foto no play. Sim, isso mesmo, produzir fotografias, em sua grande maioria retratos, em playgrounds de condomínios, é a rotina dos fotojornalistas em tempos de pandemia. 

O tal do “novo normal” trouxe desafios na vida de cada um de nós, tivemos que nos adaptar a novas formas de estar no mundo. Em um primeiro momento, o dia a dia na rua fotografando era ameaçador, havia um grande receio pela contaminação e a maioria das pautas se relacionam com situações potencialmente perigosas para o contágio.  Aglomerações em filas de banco, postos de saúde, cemitérios e situações de rua, em geral, fazem parte da maioria das pautas. Mas à medida em que o tempo da pandemia se prolongava outro desafio se colocou para a rotina do fotojornalista: A foto no play. Quase todas as pautas do jornal se resumiam a uma mesma condição fotográfica: criar um retrato onde a pessoa está, ou seja, via de regra, em seu apartamento. Então imagina que você vai fotografar o campeão de boxe… Se fossem tempos normais, poderíamos fazer as fotos dele treinando na academia, ao invés disto, agora precisamos bolar uma boa foto no playground do seu prédio. E o mais difícil é que não importa se é lutador, cozinheira, designer, empresário etc. A situação sempre permanece a mesma. Criar um retrato em um ambiente que muitas vezes não tem nada a ver com o que estamos falando e quem estamos mostrando na imagem.

 

Michelli Venturini, professora. Foto: Felipe Iruatã/ Ag: A TARDE

 

O retrato sempre fez parte da rotina do fotojornalismo. Arrisco dizer que mais da metade do material produzido pelas editorias de fotografia dos jornais é retrato. Muitas vezes as situações são improvisadas, precisamos produzir retratos dos mais diversos tipos de pessoas em um curto espaço de tempo. Já é desafiador criar algo interessante assim, precisamos apostar na potência deste encontro e a casa acaba sendo um espaço fundamental para transmitir traços da personalidade do retratado. É bem verdade também que buscamos fazer retratos em ambientes externos explorando outro aspecto do retratado. No entanto, pela pandemia, tudo que for atividade externa e não seja fundamental, está suspenso. Então, voltamos ao play. Como criar retratos neste espaço tão impessoal?  

Diogo Lopes Filhos, ator  Foto: Adilton Venegeroles/ Ag: A TARDE

 

O playground é um ambiente com características curiosas. A princípio é um ambiente comum a todos do prédio. Pode ser um espaço de convivência dos membros que fazem parte desta comunidade. Mas ao mesmo tempo, não é o espaço de ninguém. Também tem quem prefira fotografar no modo P da sua câmera. O “P” de play permite maior liberdade ao olhar do jovem fotógrafo, libertando a mente de verificar fotômetros, deixando-a focada no que acontece diante das lentes. Mas também pode limitar a ação deste fotógrafo, é um modo quase todo automatizado. O programa da máquina faz por você e pode virar uma limitação quando isto não te permite dominar o resultado final do trabalho e imprimir autoria a ele. Neste caso, modo “P” se torna “P” de preguiça. É neste terreno de incertezas e impessoalidades que precisamos criar imagens que possam representar especificamente uma pessoa, de característica e qualidades únicas e dialogar com espaços vazios de personalidades e recheados de estereótipos. A fotografia parece mesmo gostar de flertar mais com as perguntas do que com as respostas. Afinal, por que o fotojornalismo precisa parecer ser verdadeiro? Onde reside a verdade da imagem fotográfica? A fotografia é consequência de uma realidade ou criadora de diferentes realidades? 

 

Kaique Brito, criador de conteúdo. Foto: Rafael Martins/ Ag: A TARDE

 

Desde o começo o retrato é um campo desafiador para fotógrafos. Ele sempre se coloca em uma linha tênue entre a hierarquia da máquina e a construção dialógica com o fotografado. Tenta revelar algo sobre alguém, uma espécie de característica que já se sabe antes, que é reconhecível naquela pessoa, mas que ainda não havia sido fotografada. Se a imagem conseguir revelar algo de novo visualmente, mas que já seja reconhecível daquela personalidade ali representada, então temos um bom retrato. Algo de mágico precisa acontecer ali, aqui, sempre, seja onde for.

 

Rafael Martins/ Agosto 2020