Yemanjá nem imagina a quantidade de fotógrafos que caminham nas areias do bairro do Rio Vermelho, em Salvador, no dia 02 de Fevereiro. Sua devoção não é pela rainha das águas, mas pelas imagens. Para eles, ali não é somente uma festa religiosa, é também o maior encontro informal da fotografia soteropolitana. É uma espécie de “networking” misturado com safári fotográfico. Cada um busca seu destino entre a imagem e as águas salgadas. Mas uma coisa é fato: Atualmente é quase impossível realizar um enquadramento sem incluir um colega na imagem. 

Foto: Rafael Martins

Muitos reclamam, dizem que a festa ficou “crowdeada”. Acredito que exista um fotógrafo para cada tipo de pessoa ali representada. Podemos encontrar aquele “fotógrafo/a calouro/a”, que ainda tá chegando na área, não é acostumado a fotografar em festa de largo, oscila entre a excitação por estar na rua com sua máquina e o medo de perdê-la. Muitas vezes ainda precisa conhecer melhor seu próprio equipamento para poder desmistificá-lo. É quem pergunta: Qual equipamento você usa? Existe também o oposto, o “veterano chato”, que acredita ter chegado na praia junto com Diego Caramuru. Para ele tudo era melhor antes. Havia mais respeito ou então a festa era mais sagrada etc etc etc. Claro, na verdade, era melhor antes porque só ele fotografava.

Encontramos também aquele tipo “fotógrafo/a surfista” que fica com a máquina pendurada no ombro, só de boa conversando. Para este tipo, fotografar é detalhe, o lance importante mesmo é encontrar os amigos da fotografia e colocar a conversa em dia. Ou ainda, podemos encontrar o “self fotógrafo/a”, para ele/a a lente está no lugar errado na máquina. Deveria ser tipo uma “GoPro” voltada para si todo tempo. Procura mais se auto fotografar do que a própria festa. Não está realmente preocupado com o resultado de suas imagens, mas, sim, com o seu rosto ou com o story que precisa postar logo depois que jogar as flores no mar.

Foto: Rafael Martins

Estereótipos à parte, a festa de Yemanjá consolidou-se como uma manifestação religiosa na Bahia que atrai gente de diversos cantos do país e não só para fotografar. Mas foi através destas imagens que a celebração se tornou também um evento turístico da cidade. Existem muitas discussões pertinentes e necessárias sobre a forma de produção dessas imagens, sobre respeito, empatia e limites. Precisamos caminhar firmes para uma fotografia com maior alteridade entre quem fotografa e é fotografado. 

A pergunta que fica é, como seria a memória do dia 2 de fevereiro sem esses “voyeurs”? São as fotografias mais diversas que alimentam o imaginário coletivo sobre Odoyàs. Uma coisa cria a outra. A festa se torna mais popular também porque existem mais imagens sobre a festa chegando em mais lugares. Existir mais fotógrafos/as também é indício de popularidade. Quem reclama que a festa não presta, hoje, porque tem muita gente fotografando, precisa parar um pouco e fazer uma autorreflexão: Por que só presta quando está só? Onde reside o valor desta fotografia? Quem quer construir narrativas sozinho/a?

Neste ano, de 2021, veremos as areias mais vazias, o acesso será limitado por causa da pandemia do COVID-19. Teremos uma festa atípica com a presença majoritária da polícia, funcionários da prefeitura e imprensa. Eu mesmo estarei lá, mas sem colocar o papo em dia com colegas, sem reclamar de quem se mete na frente da foto, sem os/as calouras em seus primeiros cliques. O “crowde” do dia 2 de fevereiro mostra a importância de debatermos como fotografamos e quem fotografa respeitando toda a complexidade e densidade do debate. A solução não é simples e muito menos uma placa de “Não fotografe”. É compreender o poder da imagem e que ela não é só nossa, mas de quem vive aquele momento conosco. De toda forma, sigo clicando e torcendo por uma festa diferente em 2022.

Foto: Rafael Martins